sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Fim


Houve um tempo em que eu não desejava morrer,
mas vê-la, por três vezes, atentar contra seu brilho
ascendeu em mim um sol fúnebre:
penso, todos os dias, em métodos de perecimento.

Em casa, ao acordar com as unhas enterradas nas palmas das mãos,
imagino todo fluído corporal vertendo, lentamente
embebedando colchas brancas e
travesseiros feitos de material da NASA
– eu sempre quis ir à Lua.

Aos passos rastejantes em direção ao banho, arquiteto um deslize esplêndido.
Uma perda de memória, um corte profundo.
De súbito. Quem sabe?
O que não quero, jamais, é morrer dormindo.
Isso impediria o final dos meus sonhos.

Saio de casa com a direção certeira,
imponho-me frente ao ônibus, que,
por sorte, estará em velocidade máxima, desfilando seus 76 passageiros.
Fecho os olhos e aguardo:
Aberta eu despejaria toda dor colecionada.

Confesso que houve um tempo em que eu não desejava morrer,
mas vê-la, por três dias, escurecer sua vida
fez nascer em mim uma Lua minguante:
então eu conto, todos os dias, a hora de te encontrar.


quarta-feira, 29 de junho de 2016

Chá das seis


Aos números ímpares que me fascinam, dou cores.
Em uma ânsia egoísta, saciam-me: indivisíveis.

Cantarolo rosas com lábios coloridos,
enquanto aguardo seus beijos suaves,
seus toques tenros, seus sorrisos solares.

Controlo o tempo com sensações.
Sinto cada toque ao contar os dias em que te vejo.

A mudança sempre me foi inquietação cinza, indigesta.
Acostumei-me a construir passos na concretude dos dias.
É que a transformação me intimida, azul.
E seu céu nublado me angustia.

Sete léguas me confundem a razão.
Cinco lágrimas me embaçam.

Mastigo as paixões alastradas: engulo-as rubras, lentamente.
Amedronta-me a imagem do futuro pálido, o destino doente.
Cansei-me do chá das seis, e do seu par.
Quero dias alaranjados, noites entorpecentes,
ao lado seu.

Sete dias. Sete meses. Sete anos.
Onze vidas. E nada mais.

O seu revés sou eu:
Colorirei suas memórias brancas.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Onírico


Acordei de súbito.
Mais um dia daqueles em que você aparece toda sorridente.
Assusta-me essa sua felicidade – até em sonhos.

Resisto ao máximo para não te contar tudo sonhando mesmo. Mantenho-me forte.

Não sou forte.


Você aparece. Você sorri. Você brilha.
Você não entende o porquê de suas roupas não estarem em casa.
Você vê fotos. Ele cresceu.
Mas você não se preocupa.



Quero fazer perguntas. Quero pedir que volte mais vezes. Que volte logo. Que fique.
Mas você, até em sonhos, só faz o que quer.
Choro escondido.


- Você chorou?
- Um pouco. Estava com saudades.
-


A cada visita sua, um pouco da realidade se altera.
As imagens se misturam feito almas apaixonadas.


- Até logo.


Boa noite.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Tinta

Meu desejo é tocar tua pele de flor que dorme... para que meus toques lhe cerrem os olhos carinhosos.
Olvido aos poucos
da sensação de teu sossego.
Refugio-me na inquietude da solidão.

Saio da sala, do quarto, de você e de mim.
Não me encontro em lugar algum.
Não te encontro mais em mim.
Desfiz-me.
Apaguei-te de meu corpo, meu bem.
E então não sobrou nada.

Ora, eu sei que o último romance também acaba.
Ainda que reste o amor:
Sem fome.
Sem sede.
Sem calor.


Como explicarei aos olhos curiosos que seu amor me entristece?
Chorando, certamente, para não precisar explicar o fim.

E no fim?

Sofrerei de maneira incalculável com meus pensamentos, pois
incapaz me encontro - incapaz de dividir toda essa tristeza contigo.
A inquietude conhecida me reencontra, e não se afasta:
Fita-me com olhos de dor.
Demonstra-me todo o luto do caminho.
Coloca-me nos braços – e me carrega.

Inerte,
Despeço-me te amando.


A cada uma dessas linhas, uma lágrima.
Como se lágrimas fossem a tinta de que minha pena necessita.
Pobre de mim:
Há lágrima.
Há pena.

- Fim.

quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Partículas



Os dias se desfarelam e suas dificuldades tornam-se minhas,
acomete-me a ideia de que seu bloqueio é causado por mim:
são minhas palavras que te encabulam e ensurdecem.

Faça isso, faça aquilo – digo.
E você me ignora com a tranquilidade de quando uma borboleta sai de seu casulo. 
[Ou seria ansiedade?]
Anseia tanto por me afrontar, que, ansiosamente, afronta a si mesmo.

Tateia minha boca com os olhos. Toca minhas mãos com o pensamento.
Encontra-me na memória em um segundo...
mas não sabe repetir uma frase que eu, calmamente, acabei de dizer.



Para você, minha boca, se insinuando, dança com o som que sai dela: que o hipnotiza.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Emaranhado


Derrubo palavras e são nelas que te encontro.
Não há melhor ângulo para te avistar do que nas minhas letras.
Te vejo delineado pelos meus traços
e teu estado de espírito é traduzido por minha mão.

Não existem linhas no papel.
Teu percurso, teu norte, teu destino:
sou eu quem traço.

Posso te dispor todo para esquerda em um momento.
E no outro posso te dissolver pela direita. Em cima. Embaixo.


Te misturo comigo.

sábado, 12 de abril de 2014

Todo Perdão


Sou eu quem implora mil perdões.
Por todos aqueles motivos que Chico já elencou.
Você, como um bom homem, me perdoa por todos eles.

Me perdoa pelas perguntas, me perdoa pelas milhares de ligações
e, em consequência disso,
também pela insistência em te ter o tempo todo.

Você me perdoa pelas reclamações, mesmo achando infundadas.
Você é bom. Até me perdoa por quando, em segundo plano, eu te espero.
Me perdoa.

Você me perdoa por me trair.

Você, rindo, me perdoa porque choro demais.
E eu choro mais.

Talvez seja pra continuar recebendo todo esse perdão.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Momento


Gostaria que, em todos os momentos de meus caminhos,
meus passos estivessem etilizados:
Que seja de vinho – eu diria, cambaleante.
Do meu jazz preferido.

Gostaria que, em todos os momentos de meus caminhos alcoolizados,
meus refrãos fossem dançantes:
Dançaria até mesmo solitária,
desde que a ebriedade me conduzisse.

Não quero em meu caminho a sóbria tristeza.
Desejo a cena etílica dos filmes sem cores:
Onde o riso impregna feito droga,
onde o prazer deságua por todos os lugares.

Meu caminho, assim, regado de insensatez, dormência e amnésia,
será o repouso de todos os espectros que me enlouquecem:
Embriaguem-se do meu sangue...

Durmam, durmam, durmam – sonhem.

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Espetáculo


Tenho andado egoísta.
Tão egoísta a ponto de prender as palavras,
de que você tanto gosta, em meus lábios, dedos, mente.

Impeço minha mão de escrever.
Minhas palavras bailarinas estão se embalando num ritmo desconhecido.
E isso me atordoa.

Quero que elas saltem papel adentro. Retina adentro!
Peço a elas movimentos ordenados. Movimentos precisos.
Ensaiados. Cuidadosos. Grandiosos. Sincronizados!

Mas não.
Embalam-se todas - e se embolam.
E isso me atordoa.

É no papel branco onde tenho encontrado a paz.
Minhas bailarinas gritam! Imploram por contemplações.
Despejo-as em minha paz.


Elas me atordoam.

domingo, 28 de julho de 2013

Vão


Fervilho pensamentos.

A cada sintoma da doença que nos acomete,
passo dado ao lado oposto.
A cada palavra pontiaguda proferida,
hemorragia de lágrimas.

Estamos fadados ao fracasso, minha razão afirma.
Estamos caminhando sozinhos, embora lado a lado.
Estamos perdendo, estamos perdendo, estamos...

Sofreremos, meu amor, toda a sorte submergida.